Profissões Urbanas: O dia de um coletor de lixo

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Variedades | 02/08/2011 - 12h27

A placa branca e vermelha anuncia que no sobradinho de esquina funciona um salão de beleza. Mas quem aparece sorrindo no reflexo do espelho é o coletor de lixo Geison Paulino da Silva, o “Raí”, de 41 anos. “Dividi minha sala pra alugar um pedaço pra cabeleireira, sabe? Em troca, ela me deixa bonito!” – diverte-se, indicando na cabeça o topete com pontas descoloridas.


Raí é um dos 3,2 mil coletores de lixo da cidade de São Paulo que juntos recolhem cerca de 13 mil toneladas de resíduos sólidos domiciliares todos os dias, segundo dados da Ecourbis - uma das empresas terceirizadas pela prefeitura para fazer o trabalho de coleta. Diariamente, cada habitante produz quase 1,5 kg de lixo, de acordo com pesquisa realizada em 2010 pela Abrelpe (Associação Brasileira de Empresas de Limpeza Pública e Resíduos Especiais).


Como a grande maioria dos coletores, Raí veio do Pernambuco – a maior parte dos profissionais se divide entre pernambucanos, baianos e paulistas, segundo a assessoria da empresa. Trabalhou em outras funções antes de se estabilizar, há quase 18 anos, como coletor. Empoleirado na rabeira do caminhão, percorre bairros do centro expandido e, entre subidas e descidas do veículo para recolher o lixo, chega a correr até 16 km todos os dias, o que explica o fôlego e o condicionamento físico de atleta: “Eu alongo bastante antes de começar a trabalhar, né, porque a correria não para! Isso aqui não é qualquer um que aguenta, não”- comenta.


A reportagem da TV iG acompanhou um dia na rotina de trabalho de Raí. É por volta das 4h da manhã que ele se despede da esposa e do casal de filhos e, depois de um café preto muito doce, sai de casa no Jardim Germânia, zona sul da cidade, já vestido de uniforme, “pra adiantar, né?”. O trabalho de coleta começa cedo e não tem hora certa para acabar. Tudo depende do acúmulo de lixo dos moradores, que pode variar de um dia para outro. “Em dias de feira, por exemplo, a quantidade de lixo triplica”, explica. O mesmo acontece próximo do dia 10 de cada mês, quando boa parte da população recebe o salário. “Com mais dinheiro no bolso, mais as pessoas gastam. E com mais gastos, mais lixo”, conclui o coletor.


Cada caminhão sai da empresa com quatro funcionários: um motorista e três coletores. Quem conduz o veículo, aliás, é quase sempre um ex-coletor. Dentro da empresa existe um processo interno de avaliação, treinamento e promoção daqueles que queiram se candidatar ao posto de motorista, cargo melhor remunerado – o salário base de um coletor é de R$ 860,69.


Há tanto tempo no ramo, Raí não tem planos de mudar de profissão. “O trabalho é pesado, mas o importante é quando a gente gosta do que faz. Eu avisto aquela rua cheinha de lixo. Aí salto do caminhão e vou recolhendo tudo. Quando olho pra trás e vejo a rua limpinha é gratificante, sabe?”, conta. Segundo ele, uma das maiores dificuldades do trabalho é disciplinar os moradores, já que muitos resolvem colocar o lixo pra fora de casa sem se preocupar com o horário da coleta. “Se todo mundo respeitasse, não ia ter lixo em horário errado, a chuva não arrastaria os sacos, o cachorro não espalharia a sujeirada pela rua...”, lamenta.


Companheiro de Raí, o baiano Zenildo Souza Pinto ressalta: “Difícil também é quando as lixeiras são aquelas casinhas e a gente tem que se curvar pra tirar o lixo lá do fundo. Dói as costas. A molecada de hoje, que só quer saber de festa, não encara um serviço desse, não”. Zenildo tem razão: para iniciar na função de coletor, o candidato deve ser maior de 18 anos, mas, segundo a Ecourbis, existe muitos funcionários que exercem a função e já passaram dos 60.


Nem tudo o que é descartado pelas residências vai para o aterro. Uma biblioteca foi montada na empresa de coleta com livros encontrados pelos coletores. Coleções inteiras da enciclopédia Barsa, por exemplo, e livros didáticos de cursinhos e colégios de ensino médio também recheiam as prateleiras. “Sempre levo pra casa, pra minha filha estudar” – revela um dos funcionários. Além de livros, não é incomum encontrarem sacolas com conteúdo inesperado. “Eu mesmo já achei uma caixa com cinco filhotes de gato que quase foi esmagada dentro no nosso caminhão. Meu companheiro já encontrou um feto, mas já não dava pra salvar”, conta Raí.


E finaliza: “Às vezes é difícil. O preconceito [com os coletores de lixo] existe. Quando vamos ao banco usando o uniforme, por exemplo, as pessoas ficam olhando... Mas eu não troco meu trabalho, não”.



Reportagem: Heloisa Ferreira, iG São Paulo

Vídeo: Imagens: Daniel CB, Kauê Agostinho e Shinji Shiozaki. Roteiro: Gui Stockler. Produção: Heloisa Ferreira. Edição: Kauê Agostinho

Trilha Sonora: “Sete a Zero” – Glauber Seixas


A série:

A série "Profissões Urbanas" foi produzida pela TV iG. Cada episódio traz a rotina de trabalhadores que atuam principalmente em funções de serviços essenciais à população e que muitas vezes são pouco valorizados.


Veja também na TV iG:


Profissões Urbanas: O dia de um feirante


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